15 Minutos. Talvez Menos.
Pego na mala, nas luvas, no cachecol, no chapéu de
chuva e nos sacos. Tento encaixar tudo da melhor maneira. Fico sempre espantada
com a quantidade de coisas que conseguimos transportar apenas com duas mãos e
dois braços.
A chave do carro!! Bolas, falta a chave do carro. Onde
é que a enfiei? Não está na cadeira. Estará na mala? Pouso - ou atiro, já nem
sei - tudo outra vez, no chão, em cima do sofá. Procuro na mala. Cheia de
coisas. A mala cheia da minha vida. A minha vida inteira está dentro daquela
mala. Nada. Onde raio é que eu pus a chave do carro?! E eu atrasada! Sempre
atrasada!
Será que a deixei no bolso do casaco de ontem? Vou da
sala ao quarto em passo apressado e pesado. O barulho dos saltos incomoda-me.
Ecoa dentro da minha cabeça. Previsível!
Pego em tudo outra vez. Toca o telemóvel. Fuck! Não
acredito que toca o telemóvel. Vai começar tudo outra vez. Tou? Sim, estou a
sair agora. Demoro 15 minutos. Talvez menos. Até já.
Fecho a porta. Chamo o elevador. Rezo para que não
venha ninguém lá dentro. Há poucas coisas mais constrangedoras que estarmos
fechados em dois metros quadrados com alguém que não queremos conhecer. Vazio.
Valha-me isso.
Chego à garagem e sigo até ao carro. E o barulho dos
saltos a ecoar dentro da minha cabeça. Atiro com tudo para o banco de trás.
Tudo não. Que o telemóvel pode tocar e tenho que o ter à mão. A mala no banco
do pendura. Sempre a mala no banco do pendura que gosto de ter a minha vida ao
pé de mim. 15 minutos. Talvez menos.
Ligo o carro, e logo de seguida o rádio. Preciso da
música. Arranco e só depois ponho o cinto. Foi sempre assim. Não sei porquê.
Saio da garagem acelerada para logo a seguir ter que
abrandar porque o carro da frente vai a fazer turismo. Vá lá, anda lá! Esta
gente é boa para ir buscar a morte! Empatas do caraças! Fico em ânsias. Com
ganas de lhe chamar nomes. 15 minutos. Talvez menos. Gorda! Deve ser
gaja e gorda!
Felizmente chegamos a uma estrada onde nunca passa
ninguém. 15 minutos. Talvez menos. A lomba não me assusta, aqui nunca
passa ninguém. Ponho o pisca, guino o volante e acelero. Saio detrás daquele
carro que me empata a vida. Saio. No único dia em que passa alguém.
15 minutos, talvez menos.