A História do Semáforo que Queria Mudar de Vida

O semáforo para peões da Rua do Lá-Vai-Um era um semáforo inconformado com o seu destino. Por isso, o boneco vermelho passava mais tempo ligado, como que num sinal de protesto contra a sua própria imobilidade. Só quando o vento lhe arrepiava o poste, ou uma mosca lhe pousava em cima - a fazer o que as moscas fazem quando pousam em cima de alguma coisa-, ele se decidia a mudar para o boneco verde, deixando-o mexer as pernas durante uns escassos 15 segundos, na tentativa de afastar o incómodo causado.
A Rua do Lá-Vai-Um era uma rua muito antiga. Tão antiga que, na altura em que foi alcatroada, poucas eram as pessoas que por lá passavam. Mas os senhores que a tinham imaginado, decidiram que tudo o que a rua precisava para ser um ponto de passagem obrigatório, era de semáforos. E então colocaram, bem no meio da rua, semáforos para os veículos que passavam na estrada e, por inerência, colocaram o semáforo para peões.
No início, o semáforo estava contente e orgulhoso da sua tarefa. Sentia-se verdadeiramente importante, ao perceber que era ele quem decidia quando os transeuntes podiam e não podiam passar para o outro lado da rua. Na verdade, não era só um sentimento. Era uma realidade. Decidir quando se pode atravessar a estrada é uma tarefa de grande responsabilidade. Uma escolha mal feita pode significar um carro demasiado perto e um acidente com consequências imprevisíveis, mas sempre demasiado graves para ser descurada. E o semáforo sabia disto.
Mas os anos foram passando, e o escasso número de pessoas a precisarem dos seus serviços não lhe animava os dias. E depois havia os outros. Os que teimavam em ignorar as suas indicações, como se ele fosse só um poste ali plantado que, sem qualquer critério, emitisse luzes de cor verde ou vermelha, alternadamente. E atravessavam a estrada, muitas vezes – demasiadas – a correr, com os carros a chegarem rapidamente, em algumas alturas a terem de fazer travagens bruscas para não atropelarem ninguém. As pessoas não percebiam o perigo que corriam. E se tropeçassem e caíssem e o carro não tivesse tempo de travar? E se o condutor fosse distraído e não os visse ao longe, acelerando ainda mais e chegando até eles mais rapidamente do que os seus cálculos tinham previsto?
Durante um tempo, isto era coisa que angustiava e preocupava o semáforo da Rua do Lá-Vai-Um. Mas assistir a isto, dia após dia após dia, cansou-o. Ficou desgostoso com o desprezo que lhe davam e desmotivado para a tarefa que tinha de cumprir.
Às vezes, o semáforo sonhava em ser uma cancela de uma linha férrea. Aí sim, seria respeitado, que os automóveis e as motas e os camiões conseguem ser mais cumpridores que os peões. Quanto mais não fosse, seria respeitado pela força, que quando ele se decidisse a baixar, veículo nenhum iria passar!
Mas não havia forma de sair dali. Estava preso ao chão, nem as perninhas do boneco verde o podiam ajudar. Tinha de se conformar com o seu triste destino. Restava-lhe aguardar que o tempo o desgastasse e fosse substituído por uma outra qualquer invenção, quem sabe mais eficaz na tarefa de manter seguros os peões.
Decidiu, por isso, deixar de se preocupar. Mantinha acesso, a maior parte do tempo, o boneco vermelho – só para fingir que estava a fazer alguma coisa - e só muito raramente trocava para o verde. Irritava-lhe aquele bonequito de pernas frenéticas que não saiam do lugar. E dava-lhe trabalho, ter de calcular os tempos em que um acendia e o outro apagava. Era mais fácil assim. Só quando alguma coisa o acordava daquele sono semi-profundo ele cumpria a sua tarefa. Como o vento que lhe arrepiava o poste, ou as moscas que lhe pousavam em cima.
Há tanto tempo que ali estava, que viu nascer bem perto uma escola. A rua do Lá-Vai-Um tornou-se, de repente, na rua do Lá-Vão-Muitos. E que algazarra faziam! Ele a querer dormir e descansar e as crianças, à hora de entrar e de sair, a incomodarem-no com as suas conversas trocadas demasiado alto, com os risos e gargalhadas sonoras. E depois ainda havia os pais, os avós e os tios, que ele bem os ouvia a reclamar “este-semáforo-é-horrível-está-sempre-vermelho-deviam-era-tirá-lo-daqui-e-substituí-lo-por-um-que-funcionasse-que-isto-não-há-paciência”. E o semáforo apetecia-lhe gritar bem alto “pois-é-minha-senhora-isso-é-que-eu também-queria-mas-ninguém-me-ouve!”.
Um belo dia de manhã, ainda o semáforo estava a tentar perceber que horas eram e onde estava – como se ele fosse a muitos lados-, sentiu umas cócegas junto ao boneco vermelho e pensou: lá vem mais uma mosca fazer das suas! E preparava-se para ligar o boneco verde a ver se com o movimento ela decidia ir-se embora, quando percebeu que aquelas patas eram demasiado cheirosas para serem de mosca. Foi quando ouviu a conversa:
- Tu estás a dizer que antes de seres assim... linda e maravilhosa... eras uma lagarta?!
- Sim, é isso que estou a dizer. Nós, as borboletas, começamos por ser ovos, depois somos larvas, passamos a crisálidas e só depois nos tornamos borboletas. Ou tu achavas que ser bonita não dava trabalho? Não são só vocês, as abelhas, que têm trabalho para manter a natureza a funcionar, sabias?
- Pronto, está bem, não sabia. Mas tu só tens de esperar que as coisas aconteçam. Não tens de fazer nada, não tens responsabilidades.
- E tu, que responsabilidades é que tens? - perguntou a borboleta.
- Tenho a responsabilidade de ajudar a manter a vegetação do Planeta! Nós, as abelhas, somos responsáveis pela maior parte da polinização das plantas. E sabes o que isso significa? Que somos nós que levamos e trazemos de umas plantas para as outras, o pólen que é preciso para elas se reproduzirem. Se um dia decidirmos fazer greve, acaba o mundo! Ah pois é!
- A sério?! Não fazia ideia. Mas eu pensava que vocês andavam sempre assim, de um lado para o outro de um lado para o outro, porque eram... sei lá... irrequietas!
- Irrequietas?! Mas tu achas mesmo que nós temos vontade de trabalhar sem parar? Tu não achas que nos apetecia pousar numa bela flor e ficar lá só pelo prazer de ficar? Mas não podemos. Melhor, não conseguimos. Somos demasiado responsáveis. Se bem que os seres humanos bem mereciam perceber como somos importantes. Não somos como eles, que nos tentam matar se for preciso e que com as suas invenções idiotas desequilibram a Natureza. Podíamos dizer assim “ai ele é isso? Então também não trabalho mais!”. Mas a verdade é que isso também não nos faria felizes. Trabalhamos muito sim, mas fazemos aquilo em que acreditamos. Sabemos a importância que temos e sabemos que o Planeta precisa de nós. Não vamos desistir. Temos uma função – e muito importante – e vamos cumpri-la até ao fim. Às vezes desanimamos, é verdade. Mas a maior parte do tempo orgulhamo-nos de sermos quem somos e de contribuir para o bem-estar de todos. Fazemo-lo não pelo reconhecimento dos outros, mas para nossa própria satisfação.
O semáforo ficou banzado.
Como tinha razão aquela abelha. E como ele tinha sido um semáforo orgulhoso e irresponsável! Tinha desistido por falta de reconhecimento, quando a importância da sua tarefa não estava no reconhecimento, mas sim no objectivo. Mais, estava no prazer que lhe dava o que fazia. Na felicidade que lhe trazia. Havia quem o desrespeitasse, e então? Não havia ninguém que, no final do dia lhe dissesse Obrigada! Bom trabalho!. Paciência! Porque havia o mais importante. Havia peões que tinham atravessado a estrada em segurança. Havia crianças que não se tinham aventurado na ânsia de chegar mais depressa ao outro lado.
O semáforo teria sorrido se pudesse. E tem quase a certeza que conseguiu ficar ainda mais direito. Ao longe começou a ouvir as vozes das crianças e dos adultos que íam chegando para mais um dia de escola. Fez muito depressa todos os cálculos que eram precisos. Olhou com muita atenção para estrada, de modo a verificar que era seguro. Contou até três para dentro, desligou o boneco vermelho e ligou o verde. E naquele momento, emocionou-se com a alegria de quem passava. Era isto. Era isto que o tinha animado quando começou e que o havia de animar todos os dias dali em diante.
Qual cancela, qual quê! O semáforo não precisava de mudar de vida. Só precisava de mudar a forma como a via.

FIM