A Vizinha da Frente
Querido Vizinho do 7º Frente,
(Gustavo
Luís Gomes Teixeira. Sim, sei o nome todo. Está escrito nos envelopes de
correio registado que nunca te chegaram às mãos. O carteiro pensa que sou tua
mulher. Que pena nunca ter sido!)
Esta é a minha carta de demissão.
Demito-te de fiel guardiã do teu espaço. Ainda que nunca mo tenhas pedido, tenho
quase a certeza que sabias bem que te velava dia e noite, e que gostavas disso.
Fiz tudo para que o teu regresso
a casa – o teu regresso a mim! – fosse o melhor momento do teu dia. Mantive o
patamar junto à tua porta impecavelmente limpo (esfregava-o todos os dias de
manhã, depois de saíres). No dia em que fez três anos que te mudaste para aqui,
comprei a planta que coloquei no canto direito da tua entrada. Viste como está
frondosa? É o ser vivo que resulta da nossa união. Tu sabes!
Sei que sentias que te espreitava
pelo óculo da porta. E gostavas disso, não gostavas? Quando saías aos Domingos
para jogar à bola, com os calções que deixavam ver as pernas musculadas, fazias
de propósito e ficavas a admirar os músculos, só para mos mostrares a mim. E
quando esperavas pelo elevador todos os dias de manhã e passavas a mão pelo
cabelo, era a tua forma de me dizeres bom dia. E eu suspirava.
Mas agora chega. Estou cansada de
tratar do teu reino sem ser a rainha.
Além disso - vou confessar-,
encontrei alguém que tenho a certeza que me quer. Sorri-me no café todos os
dias de manhã. Aquele café onde costumo ir no cimo da rua, sabes? Quis o
destino que o apartamento mesmo em frente ao dele vagasse. Mudo-me hoje.
Mal posso esperar por encontrar o
carteiro.
A
Vizinha da Frente