O Director da Escola
Quando
o despertador tocou às sete da manhã, Joaquim deu um salto da cama e aterrou
directamente na banheira. Sabia que nesse dia não lhe era permitido adiar os
normais 10 minutos antes de se levantar. Tinha marcado um encontro com o
Director da escola e um representante do Ministério da Educação e não queria de
maneira alguma atrasar-se. Iriam discutir-se propostas de melhoramento da
escola, na sua maioria sugeridas pelo Joaquim, e era uma honra que o director o
tivesse convidado a participar.
Vestiu-se
e bebeu à pressa um copo de leite. Sabia que sair de casa sem comer, era meio
caminho andando para um dia menos produtivo.
Não
tinha ainda chegado ao final do lance de escadas que dava acesso à porta do
prédio, quando começou a ouvir a D. Gertrudes a gritar do lado de fora:
-
Sr. Professor, Sr. Professor! Venha depressa, sabe lá o que aconteceu!
Joaquim
abriu a porta do prédio e por momentos teve dificuldade em encarar a luz. Os
dias de Verão são pródigos em presentear-nos com uma luminosidade matinal que
fere a vista dos que ainda mal passaram do sono à vigília.
-
D. Gertrudes! Aconteceu alguma coisa?
-
Oh Sr. Professor! Mas o senhor não ouve notícias de manhã? Venha comigo que lhe
mostro o jornal!
Joaquim
ainda tentou perguntar qualquer coisa, mas aquela mulher furacão, típica mulher
do Norte, agarrou-o pelo braço e conduziu-o até à mercearia.
Na
primeira página do jornal lia-se:”Director de Escola Primária detido por
Tráfico de Armas”. A fotografia, impressa em tamanho grande sem contemplações,
não deixava dúvidas, era o director da escola do Joaquim.
-
Mas isto não pode ser D. Gertrudes! Eu conheço bem o Dr. José Luís Matoso. É um
homem sério. Há aqui qualquer engano, tenho a certeza. Além disso eu tenho uma
reunião marcada com ele para hoje, para agora! Uma reunião importante! Isto não
pode ser… - Joaquim estava incrédulo. Podia pensar em muita gente que conhecia
capaz de uma coisa daquelas, mas não o director da sua escola, pessoa que tinha
aprendido a admirar e a respeitar.
-
E agora o que é que eu faço D. Gertrudes? Vou sozinho ao Ministério? Eles
querem lá saber de mim! Ainda pensam que também tenho alguma coisa a ver com
isto!
-
Dessas coisas dos Ministérios eu não percebo nada, mas só lhe digo Sr.
Professor, é preciso muito cuidado com as companhias, isso é que é!
Perdido
entre o espanto e a decepção, Joaquim saiu para fora da mercearia com um único
pensamento: O que é que eu faço?
O
Sol bateu-lhe em chapa nos olhos e não só lhe iluminou a vista, como lhe
iluminou o espírito.
-
Vou ao Ministério! Não tenho nada a perder.
Conseguiu
chegar em cima da hora combinada, 8 e meia da manhã. Parecia haver ainda poucas
pessoas no edifício. Dirigiu-se ao segurança, apresentou-se e disse ao que ia.
-
Pode subir. O Sr. Dr. está à sua espera. Apanha aquele elevador e sai no 5º
piso. É a 3ª porta à esquerda no corredor.
Com
o coração a bater a um ritmo acelerado, aquela viagem de 5 andares mais parecia
a subida ao cimo da Torre Eiffel. Seguiu as instruções do segurança e bateu à
porta.
-
Entre, entre – disse uma voz masculina vinda de dentro do gabinete.
Joaquim
entrou.
-
Estava à sua espera – o homem era alto e de porte imponente, mas ainda assim
com um semblante simpático.
-
Não tinha a certeza se deveria vir, dadas as circunstâncias… - Joaquim não sabia
se deveria abordar o tema, mas não havia forma de o evitar.
-
Fez muito bem em vir. Deixemo-nos de rodeios. A escola primária do Bairro das
Fontes onde o senhor lecciona, precisa desde hoje de manhã de um director. O
lugar é seu!
Joaquim
ficou perplexo. Esta reunião revelava-se bem melhor do que prometera.
FIM