A Amizade é uma Coisa Gloriosa e Maluca
(aos meus amigos)
Somos 14 adultos. Cinco crianças. Cinco gatos, um
porquinho-da-índia (em breve 2) e uns quantos peixes. Já fomos mais 3
cães, cujos nomes começavam todos com a letra B, por mero acaso ou
coincidência.
Já andamos nisto há muito tempo. Ainda o tempo
passava devagar e o futuro era tudo o que quiséssemos que fosse.
Já perdemos a conta às vezes que cantámos os parabéns uns
aos outros e aos brindes que fizemos em conjunto, de cada vez que o relógio
bateu a meia-noite em cada novo ano.
Já rimos e já chorámos juntos quase tantas vezes como as
que respiramos.
Já andámos com as mobílias de uns e outros às costas,
sempre que as mudanças surgiram.
Já nos zangámos. Já amuámos. Já nos ofendemos. Já nos
reconciliámos e nos arrependemos.
Já ficámos sem chão, no medo de ficarmos menos.
Já nos abraçámos e dissemos o quanto gostávamos do outro
a despropósito.
Somos todos muito diferentes. Tão maravilhosamente
diferentes que de fora se calhar nem faz sentido.
Somos gloriosos. Talvez porque a paixão da maioria seja o
Benfica. Ou talvez porque sempre encontramos uma maneira de dar a volta.
Somos malucos. Porque nos recusamos a aceitar que a vida
tem de ser uma coisa séria e cinzenta.
Somos aqueles amigos com quem não se faz cerimónias. A
quem recebemos de chinelos e pijama se for caso disso. A quem pedimos um favor
daqueles que normalmente só se pede à família chegada. A quem não precisamos de
pedir licença para ir à casa-de-banho ou para tirar alguma coisa do
frigorífico. A quem podemos ligar às duas de manhã se a situação assim o exigir.
Somos assim estilo ciganos. Três chamadas não atendidas
por alguém e já estamos a ligar a outro a saber se sabe alguma coisa, se está
tudo bem. Que a família é para se manter debaixo de olho.
Já quase nos perdemos. E foi aí que nos (re)encontrámos.
Andamos nisto há muito tempo. Vimos nascer cada ruga que
o outro tem na cara. Vimos aumentar cada quilo que o tempo se lembrou de
trazer.
E eu, talvez porque o ano que passou foi especialmente
difícil para nós, sinto que não (lhes) disse as vezes suficientes o quão
importantes estas pessoas são para mim. O quanto as admiro e adoro.
Às vezes irritam-me. Como sei que eu os irrito muitas
vezes.
Às vezes cansam-me. Como sei que eu também os canso
muitas vezes.
Mas isso é só às vezes. Na maioria do tempo, amo-os. A
todos e a cada um. De maneiras diferentes. Por razões diferentes. Mas amo.
E de tudo o que de bom nós temos, o que eu mais
admiro, é a capacidade que temos de receber alguém pela mão do outro. Se veio,
é porque é especial para quem o trouxe. E por isso só pode ser especial
para todos. Ainda que só fique um dia, ou uma hora, enquanto estiver, é como se
sempre tivesse estado.
Hoje deu-me para isto. É que a vida é demasiado
curta e acaba sem avisar.
A amizade é uma coisa gloriosa. E maluca. E o que
nos mantém de pé quando tudo o resto falha.
Aos meus Gloriosos Malucos: que este ano "seja tão
bom como o outro. Mas muito melhor!".
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