Entrem, a Casa é Vossa

(Ao Você na TV, da TVI)

O relógio diz que são 10 horas e a campainha toca.
Levantamo-nos de um salto é hora! Ajeitamos a roupa, passamos a mão no cabelo será que estou bem?, apressamos o passo, que há convidados que não se deixam à espera. E ainda a mão vai levantada no ar para alcançar a porta e já o nosso sorriso se rasgou, a antever o prazer das horas que hão-de vir.
Quase nos sentimos abraçar, num cumprimento de quem anseia a visita entrem entrem, ponham-se à vontade, são da casa já se sabe. E são mesmo. Quem nos visita todos os dias, ano após ano, quem se senta connosco no sofá, ombro com ombro, quem vibra com as nossas alegrias- materializadas nas alegrias de outros-, quem nos entende as tristezas – que afinal não são só nossas -, quem nos consegue fazer esquecer o sombrio dos dias, é da casa, já se sabe.
Podia não ser assim. Podia ser uma visita daquelas cordiais entrem, sentem-se por favor, e nós muito direitinhos, sentados na ponta do sofá ou até no cadeirão, que o sofá seria demasiado pequeno para todos e a proximidade excessiva. Ofereceríamos um chá por pura cortesia, desejando que não aceitassem, que as pernas estão cansadas e para trabalhos já chega.
Mas não, vocês são da casa. São quem nos embala as manhãs. Têm a capacidade de se entregar todos os dias mais um bocadinho, deixando que do lado de cá, se perceba que tudo faz sentido e que não poderia ser de outra maneira. E, muitas vezes, sozinhos na sala, dizemos alto entre uma gargalhada ai estes dois! não têm emenda!
Conhecemos, nessas horas, pessoas que não conhecíamos, cantamos canções que nunca ouvimos e outras que sabemos de cor. Aprendemos truques que nos facilitam os dias, percebemos os acontecimentos do mundo e participamos nas conversas que se cruzam isso é tal e qual o que eu costumo dizer! Havia de ser comigo!
E entretanto, passam as horas sem que tenhamos dado conta. É altura de nos despedirmos. Levantamo-nos para levar à porta as visitas, com a promessa de voltarem amanhã. Obrigado por terem vindo. Foi tão bom! É sempre tão bom!
E fechamos a porta, com o mesmo sorriso com que a abrimos horas antes, porque há visitas que, mesmo quando partem, nos deixam o coração cheio.


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