Esta Alentejana Sou Eu
No dia 30 de Novembro de 1973, numa sexta-feira do
último Outono vivido no regime do Outro Senhor, os meus pais viram chegar ao
mundo a princesa dos seus olhos: eu!
Vim, como se costuma dizer, fora
do tempo. Mas eu acredito que vim no tempo certo. No tempo certo para fazer felizes
os meus pais: permitir à minha mãe ter uma boneca para adornar com lacinhos e
vestidos cor-de-rosa e para mostrar ao meu pai a doçura que só o sexo feminino
sabe ter.
Eram quatro horas da tarde
quando, nos corredores do Hospital de Beja, ecoou o meu primeiro choro. O choro
que me trouxe à vida e me permitiu encher de ar os pulmões. Felizmente, não num
prenúncio do que seria o meu futuro. Porque esse se tem feito muito mais de
risos e gargalhadas.
Fui uma criança feliz. Criada na
inocência e na pureza do campo, longe dos tubes de escape e do individualismo das cidades, perto do que
a terra tem de melhor e do aconchegante calor humano dos meus conterrâneos, que
cumprimentava pelo nome. Ferreira do Alentejo, uma vila no interior alentejano esquecido e ostracizado, mas com muito
mais para dar a uma criança do que qualquer metrópole. O meu bom gosto, que
passo a modéstia é uma das minhas principais características, pode bem advir desse
contacto privilegiado com a natureza, que me permitiu sempre ver o lado mais
belo das coisas.
Mas ser alentejana é mais do que
isso. É ter açorda de beldroegas a correr nas veias, é ter migas e gaspacho como
o coroar de um dia feliz e ferreirenses como calmantes da alma. Talvez tenha
sido por isso que eu em pequena fosse, como dizer... machicha! Característica que abandonei na juventude e à qual não
regressei, como facilmente se comprova.
O que também abandonei foi Ferreira
do Alentejo. Reconheço hoje as maravilhas do interior, mas quando ainda não se
tem 20 anos, o sonho não é passear num campo de girassóis com um dos dois
rapazes da terra elegíveis para namorado, mas sim nos corredores de um gigante shopping onde dezenas de seres do sexo
oposto na nossa faixa etária, circulam de mãos nos bolsos, como se nos bolsos
trouxessem a concretização das nossas ilusões.
Decidi por isso vir estudar para
Lisboa. O Liceu já era, e havia todo
um admirável mundo universitário a descobrir. Pelo menos, era isso que eu
achava na altura. O curso não era propriamente o sonho de uma vida, mas isso
também não era o mais importante. O que era importante era vir para a Capital,
rumo a uma vida mais independente e mais responsável. Este foi o nome que dei à
coisa perante os meus pais. Na verdade, eu queria mesmo era vir rumo a uma vida
mais livre e com mais opções. A todos os níveis. Mas adiante.
A vida de uma jovem alentejana na
grande cidade não é muito fácil. Comecei por ir viver para um quarto, na casa
de uma senhora que me controlava mais do que a minha mãe e onde me sentia
extremamente infeliz. Comecei a duvidar se teria tomado a melhor decisão.
Estava sozinha. Numa cidade que desconhecia e que me parecia grande de mais.
Tinha saudades de sair a porta e conhecer as pessoas pelos nomes. Tinha
saudades do quarto em casa dos meus pais, que por essa altura me parecia um
palácio. Felizmente não desisti. Algo me dizia que era este o meu caminho. Só
não sabia que o iria descobrir tão depressa.
Rapidamente comecei a conhecer
algumas das pessoas que ainda hoje fazem parte da minha vida. Não sei se é o destino ou o acaso que nos
junta, o que eu sei é que há acasos que permitem bons destinos. E isso é
uma benção.
O Jantar do Caloiro mudou a minha
vida. Sabíamos que o irmão da Filipa era um moço bem parecido, livre e
desimpedido. Mais velho do que nós. Um homem feito. Sabíamos também que era um
daqueles irmãos, como dizer, protector da irmã mais nova, e que por isso não a
deixou ir sozinha aquele jantar, cheio de galifões prontos a atacar tão
inocente presa – ela, não eu, que à data não nos conhecíamos.
Não tinha ainda chegado o fim do
jantar e o meu coração já batia mais forte. Não pelo álcool que me podia correr
nas veias, mas pela presença daquele que viria a ser o meu marido, o pai das
minhas filhas, o meu companheiro para a vida. Os dias de solidão acabaram, por
isso, mais depressa do que tinham começado e uma nova aventura se vislumbrava à
minha frente. Quais rapazes de mãos nos bolsos nos corredores dos shoppings! Eu tinha ganho um homem feito
e tinha sido a cidade a entregar-mo.
Foram bons tempos esses, os da
faculdade. Tempos de rambóia e tertúlias no fresco da manhã. De croissants adocicados na leveza dos
dias. Estudo? Algum sim, mas ganhei muito mais em vida do que em conhecimento.
E não me arrependo nada.
Esses quatro anos culminaram numa
viagem ao outro lado do oceano, na distante e belíssima Venezuela, em 15 dias
de amizade intensa, e que comprovaram, entre outras coisas, a minha incapacidade
para socializar de manhã. Aliás, dessa incapacidade se recorda, ainda hoje, a
minha célebre frase toma lá mais cinco que
mais não é do que o coroar de muitas horas de gargalhadas.
Os tempos de estudo acabaram
alguns meses depois desta viagem. Ainda tentei entrar no mercado de trabalho,
numa breve incursão por uma empresa que rapidamente percebi que não era para
mim. A minha vocação sempre foi outra, apesar de ter pensado durante muito
tempo que não.
Desde aquele quente dia de
Setembro, em que me casei com o Luís na terra de onde tinha saído em busca de
novos horizontes, que tenho dedicado os meus dias à família que construímos
juntos. Ganhei o que de melhor se pode ganhar nesta vida: dois corações que
batem fora do meu corpo, a quem me dedico de alma e coração, todos os dias, com
o único propósito de lhes dar o que é preciso para que sejam felizes. É isso
que as Mães fazem, não é?
Esta Sou Eu. A Pata Pousa. A menina que se olha ao espelho com a boca aberta,
enquanto experimenta uma peça de roupa nova ou alguma outra esquecida no
armário, quem sabe em expressão de espanto pela mulher em que se tornou.
Esta Sou Eu. Genuína, como só quem
cresceu a assistir ao pôr-do–sol alentejano pode ser. Sensível, como só os que
se encontram no outro são.
Amiga, como só é quem reconhece
a amizade como a essência da vida.
Esta Sou Eu. E hoje, faço,
orgulhosamente, 40 anos!
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