Esta Susana Sou Eu
Na capa da primeira edição do Diário de Lisboa, datada de 17
de Abril de 1965, podia ler-se “O Sol de Abril chama a Portugal milhares de
turistas”. A notícia dizia que muitos espanhóis se deslocavam a Portugal por
esses dias para gozar o bom tempo. Mas também que muitos portugueses se
deslocavam a Sevilha para celebrar a Semana Santa.
Alheios a esta azáfama de viajantes estariam os meus pais.
Nesse mesmo Sábado, às 13h15, na casa que sempre conheci como minha, vim ao
mundo e, nesse dia, o Sol brilhou ainda mais para um Pai e uma Mãe de primeira
viagem.
Fui uma criança calma, dizem que sempre muito risonha - o
que me acompanhou pela vida fora, que todos sabemos que tristezas não pagam
dívidas! -, mas pode acontecer encontrarem umas quantas más-línguas que afirmam
que eu era refilona e acrescentam -imagine-se!- que era miúda para andar sempre
de nariz empinado! Eu acho que isso são apenas e só calúnias, por que quem me
conhece, sabe bem que eu jamais poderia ter sido miúda de nariz empinado!
Durante oito anos reinei sozinha naquele castelo, e foram
anos muito bons, com todo o carinho e atenção só para mim. Mas eu gostava de
ter uma companhia e os meus pais acabaram por me fazer a vontade: tive uma
irmã, uma menina, como eu tanto queria, e os meus dias passaram a ser ainda
mais coloridos.
Claro que nem tudo foram rosas nesta relação. À medida que
fomos crescendo, a minha irmã queria acompanhar-me para onde quer que eu fosse
com os meus amigos, o que me aborrecia bastante: era uma “cola” desgraçada! Mas
eu era a irmã mais velha e tinha de me impor. Tudo isso passou quando nos
tornámos mulheres e hoje somos, mais do que irmãs, amigas de verdade.
Estudei o que entendi necessário e dediquei-me ao trabalho.
Não realizei o desejo de infância de ser médica, que derivava apenas da vontade
de poder manter perto de mim aqueles que mais amo, mas entre altos e baixos lá
fui conseguindo encontrar o meu caminho.
“E como é que tem sido isso de amores?”, perguntam vocês. Ai
o amor, o amor... Diz o poeta que “o amor é fogo que arde sem se ver”. Eu digo
que às vezes arde tanto que se esfumaça de vez. É isso!
As amizades têm sido pilares importantes na minha vida.
Algumas caminham comigo desde que me conheço, outras surgiram ao longo do
caminho, a provar que o melhor está sempre por vir.
De tudo o que a vida me reservou, de todas as experiências,
de todas as alegrias, há uma que me transformou para sempre, que me fez querer
ser uma pessoa melhor, que me enche a alma e o coração todos os dias: o dia em
que o meu sobrinho nasceu. Não se ofendam as mães, mas tenho a certeza que isto
que sinto não será muito diferente do que se sente por um filho. Na verdade não
concebo a possibilidade de alguém amar outra pessoa de uma forma ainda mais
intensa do que esta.
Esta Sou Eu. Uma
filha amada e dedicada. Uma irmã e uma cunhada amiga. Uma tia babada.
Esta Sou Eu. Uma
amiga fiel e disponível. Uma mulher bem-disposta e decidida. De gargalhada
fácil e olhos postos no futuro.
Esta Sou Eu. E
hoje faço, orgulhosamente, 50 anos.
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