Esta Elisabete Sou Eu
A Vivenda Luzia (nome da minha
Mãe) foi a casa onde nasci e cresci, numa infância que recordo com todo o
carinho e gratidão. Nasci numa sexta-feira, ali colado ao fim-de-semana, que já
nessa altura eu devia saber que os melhores dias são aqueles em que somos
senhores do tempo.
Passados três anos do meu
nascimento, os meus pais decidiram oferecer-me o melhor dos presentes: a minha
irmã Susana. Ter uma irmã confere à vida toda uma outra razão de existir, não
interessa a idade que temos. Na infância, significa ter alguém com quem brincar
-e embirrar! Na adolescência, é a presença nocturna para confidenciar o que nos
vai na alma -e embirrar! Na idade adulta, é a segurança de ter quem partilhe
connosco memórias do passado que só nós sabemos - e embirrar! Assim tem sido
com a minha irmã.
Diz quem sabe – não sou eu
quem diz, atenção!- que eu era uma miúda viva e simpática – e quem sou eu para
desmentir tal afirmação? Sei que gostava de me divertir: de andar de patins, de
bicicleta, de fazer acrobacias no trapézio que havia na nossa casa de férias. Era
louca pelas estrelas de cinema e não perdia uma edição da Revista Plateia.
Adorava encenar cenas de filmes, descer a escadaria da nossa casa toda
esvoaçante, qual escadaria de um palácio! Pergunto-me que influência poderá ter
tido neste encanto o facto da Primeira Edição do Festival de Cannes ter
ocorrido precisamente no ano em que eu nasci.
Talvez tenha sido esta minha
necessidade de andar nas nuvens que
me levou aos 23 anos a concorrer a um emprego que literalmente me poria nos
céus. Numa altura em que Portugal se mantinha orgulhosamente só, ser Assistente de Bordo era uma oportunidade
única de conhecer o mundo, de perceber que lá
fora a vida corria a um outro ritmo, oferecia outras perspectivas e nós,
jovens sedentos de aventura e conhecimento, vivíamos maravilhados com essa
possibilidade.
Apaixonei-me entretanto, e
dessa paixão resultou a minha maior e melhor aventura, ainda antes dos 30. Há
40 anos nascia a minha Bruxinha e com ela todo um novo turbilhão de
sentimentos. Na altura, eu não sabia que era possível amar alguém todos os dias
mais um bocadinho e que esse bocadinho era infinito. Hoje já sei.
Mas há um outro amor, feito de
outra matéria, que descobri no meio das nuvens e se tornou solidamente real.
Bem, em abono da verdade, fui descobrindo esse amor entre cidades espalhadas
por três Continentes: Nova Iorque, Porto e Joanesburgo. Se isto não é a
materialização do “por ti vou até ao fim do mundo”, então não sei o que é!
Continuo a acreditar que o
patrocinador desta relação que dura há 35 anos foi o whisky que o Mário bebeu
naquela noite no Porto em que me ofereceu uma caneta Dupont em ouro. Quis
devolvê-la no dia seguinte, mas penso que a vergonha não o deixou aceitar. Se
lhe perguntarem, responderá que estava perdido de amores e a oferta foi o mais
lúcida possível. Ainda tenho as minhas dúvidas, mas o que é que isso interessa
agora? Também aqui percebi que o amor pode crescer todos os dias um bocadinho e
tornar-se o único porto onde se quer estar.
Esta Sou Eu. Uma incondicional amante de animais e uma
admiradora da Natureza.
Esta Sou Eu. Uma mulher que percorreu o mundo, mas foi na
pacatez do interior que percebeu de que é feita a felicidade.
Esta Sou Eu. E hoje faço, orgulhosamente, 70 anos.
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