Este Mário Sou Eu
Nasci num ano de esperança
renovada, em que os Homens pareciam ter finalmente percebido que as vidas
humanas são - todas e cada uma delas - preciosos tesouros de valor incalculável
e merecedoras desse mesmo reconhecimento. Talvez por isso tenha sido desde sempre
um homem livre, um homem do mundo, que acredita que o sentimento de posse é uma
condição dos fracos. Pena que esses mesmos Homens se tenham esquecido tão
rapidamente dos valores que eles próprios defenderam.
Ali, numa quinta-feira que roçava
o final de um mês que teria nesse ano mais um dia de aventuras, dei início a
uma longa travessia que me levou por tantos e diferentes caminhos, que nem nos
meus melhores momentos de criatividade poderia imaginar.
É certo que, na maioria das
vezes, traçamos o nosso próprio caminho. Mas também é certo que, por vezes, é o
caminho que nos encontra e nós lá seguimos ao encontro do mais inesperado.
Fui muitos eus (e em nenhum me fixei em
definitivo). Vivi grandiosos momentos (e
em todos me entreguei por inteiro). Guardo um sem número de memórias.
Muitas teimo em partilhar, outras ficarão só comigo, que um homem que não tem
segredos pouco terá para contar.
Cresci na cidade, no Bairro de
Alcântara, onde cedo me deparei com o primeiro ser humano cujo nome não deveria
fazer parte desses Direitos Humanos assumidos no ano do meu nascimento: o Taberneiro.
Atenção que não lhe chamo taberneiro em tom depreciativo (embora tivesse
vontade!). À época, as tabernas eram
comuns e aqueles que nelas trabalhavam, ou de que eram proprietários, eram
designados de Taberneiros. Foi esse homem que me cortou a ilusão de que a
persistência (e a paciência) nos faziam alcançar qualquer objectivo. Aquele
que, mesmo com toda a colecção dos cromos, me recusou a bola, prometida desde
início. Minha por direito. A minha primeira grande decepção foi também a minha
primeira grande lição de vida: nunca confiar num taberneiro!
Mas, felizmente, não foi a cidade
que me formou. Foram as férias passadas no campo com os meus Avós que me
demonstraram que a pureza vem da terra, vem do chilrear dos pássaros, do cheiro
das vacarias, das ervas que crescem todos os dias um bocadinho. Tive de correr
mundo, de ter dezenas de profissões, de me perder em amores e amizades, até me
reencontrar com essa mesma terra que hoje me preenche os dias e nunca me recusa
a bola, que, imponente no céu, brilha
sem pedir nada em troca.
Talvez não haja mesmo
coincidências e tudo sejam sinais. E talvez aquele pastor alemão, meu
companheiro na primeira viagem como comissário de bordo, me tenha vindo dizer
isso mesmo: podes atravessar oceanos,
conhecer mil povos, apaixonares-te pelas ruas da cidade da luz e assentar
arraiais em terras quentes. Serão os animais os teus melhores amigos, a terra o
teu deslumbre e a Natureza a tua confidente.
Este Sou Eu. Um sonhador, um
escritor, um poeta. Um pintor, um agricultor, um jardineiro.
Este Sou Eu. Um homem à procura
de quem pode ainda ser. Crente de que serão infinitas as possibilidades.
Este Sou Eu. E hoje faço,
orgulhosamente, 70 anos!
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