Este Júlio Sou Eu
Naquele Domingo, Alfarela de Jales deveria estar centrada no carvão que assaria as castanhas e nos garrafões que transportariam a água-pé. Isso seria verdade em toda a aldeia, mas não na casa dos meus pais. É que naquele Dia de São Martinho de 1956, os meus pais viam completar-se a sua família, com a chegada ao mundo do seu terceiro filho, quem sabe o rapaz porque o meu pai ansiava: EU!
Há quem acredite que os anos
bissextos são prenúncio de desgraças. Eu não. Nasci num ano bissexto e não me
parece que me tenha dado mal com isso. Aquele ano, foi aliás, um ano profícuo
em matéria de nascimentos cujos nomes soaram mais tarde pelo mundo: Rodolfo
Rodriguez (futebolista uruguaio), Martina Navratilova (tenista nascida na
antiga Checoslováquia) e o nosso grande ciclista Marco Chagas. Todos eles
nasceram no meu ano e trouxeram ao mundo muitas alegrias.
Eu próprio fui uma criança alegre
e feliz. Crescer com duas irmãs mais velhas dá-nos aquela dose extra de mimos e
atenção que fazem qualquer criança sentir-se o ser mais amado do mundo, o que
resulta, necessariamente, num adulto que encontra nos afectos a sua maior
força.
Durante a minha infância,
Portugal era um país onde existiam muitas dificuldades, principalmente para
quem vivia no interior. Trás-os-Montes, longe do centro, sofria ainda mais, e à
maioria restava apenas uma opção: procurar noutro país as condições que no seu
não encontrava. Foi também isso que decidiram os meus pais, e Estugarda foi o
destino. Eu teria cerca de 10 anos e fiquei em Portugal a cargo das senhoras Luizinha, Mariazinha e Alicinha, que tomaram conta de mim como se fosse seu filho.
O pior foi quando foi decidido enviarem-me para um colégio no Porto. Que
tirania! Habituado que estava à vida e à liberdade da aldeia, encontrei na
minha disponibilidade para ir fazer todos os recados possíveis, o pretexto que
precisava para sair daquelas quatro paredes o maior número de vezes possível.
Passado algum tempo, juntei-me
aos meus pais em França e aí conheci aquela que viria a ser a minha
companheira para a vida. Casámos aos 20 anos e o Leonardo nasceu dois anos
depois. Tem sido em França que a nossa família tem crescido. Aí ganhei a
minha nora e as minhas duas netas que me preenchem o coração. Tê-las perto de
mim, brincar com elas, ver a mais pequena a correr para os meus braços quando
me vê, e a mais velha a rir - como só as crianças sabem rir - quando nos escondemos
por detrás da cortina e aparecemos a falar com uma voz diferente, tudo isso me
faz sentir que toda a minha vida valeu a pena.
Mas é em Portugal, em Alfarela de
Jales, que está a minha casa. A nossa casa. E é com o regresso a casa que eu e
a Lurdes sonhamos todos os dias. A pacatez da aldeia, os cheiros da serra, os
momentos dedicados ao que gostamos realmente. E no jardim, a casa de madeira
que fui construindo todos os anos para as minhas netas e que elas adoram. A
lembrar que tudo o que se faz com amor, vale a pena ser feito.
Este Sou Eu. Um apaixonado pelo meu País e pela minha aldeia.
Este Sou Eu. Um Avô que encontra nas netas o seu maior tesouro.
Este Sou Eu. Alguém que acredita que ter a família junta é o mais
importante da vida.
Este Sou Eu. E hoje faço, orgulhosamente, 60 anos.
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